Minha Opinião:Ontem vi o DVD com a versão restaurada de "Meu Tio", de Jacques Tati, 1958. Há dois paradoxos no filme:
1) ele tem a estrutura de esquete dos filmes cômicos do cinema mudo, ao mesmo tempo tem um trabalho em especial com as cores que é moderníssimo;
2) analogamente, ele é um filme que critica o modo de vida moderno e a arte modernista, mas o que termina nos fascinando no filme é seu design, a maneira como os elementos formais e simbólicos são incorporados à narrativa, ao contrário do que ocorre no cinemão conteudista ainda hegemônico. (Daí o gênio de Hitchcock, Welles, Renoir, Bergman e Fellini, que tentaram combinar pintura e ação.)
Para um espectador jovem de hoje, claro, "Mon Oncle" pode parecer cansativo pela escassez de fala, de trama, de drama. E nem todas as gags funcionam. Mas há seqüências extraordinárias desde o começo, quando o sr. Hulot abre e fecha a janela e ouve um canto de passarinho, fica intrigado e refaz o movimento várias vezes, até que descobre que num determinado ângulo o vidro reflete luz sobre o passarinho, despertando seu canto - e nessa posição a deixa. A casa do cunhado, que seria um sintoma da rotina burguesa, submissa a formas retas e recursos tecnológicos, recebe toques de extravagância na decoração e nas roupas, para acentuar a anormalidade daquela gente robótica. Com isso, não tiramos nossos olhos do ambiente, ainda que pessoalmente prefiramos morar como o sr. Hulot.
O filme vai além de mostrar o moderno e o não-moderno: satiriza a interferência provocada pelas inovações tecnológicas dentro de uma casa - levadas a um caso extremo - no cotidiano das pessoas. Na casa da família Arpel, a cozinha tem o que havia de mais moderno na época, o portão principal abre sozinho e o design dos móveis é arrojado - e desconfortável. "Tudo se comunica", retruca a sra. Arpel quando repreendida por uma visita que atenta ao fato da casa ser extremamente vazia.
É, na realidade, a própria casa que dita as regras da família. As lajotas indicam onde se deve pisar, a mesa com guarda-sol mostra onde se deve almoçar, e onde se deve tomar o café após o almoço. A casa vigia e parece ter olhos, arquitetonicamente desenhados por duas janelas redondas no quarto do casal Arpel.
O barulho do abre e fecha dos aparelhos "modernos" é tamanho que faz a casa parecer uma verdadeira fábrica, o que é explícito no clímax do filme, numa cena em que o próprio casal não consegue estabelecer uma conversa por causa dos ruídos dos equipamentos. A relação em família se torna fria - e vazia - como a própria casa onde moram.
A modernidade é admirada pela família Arpel também fora da casa. Charles, o sr. Arpel, é dono de uma fábrica de plásticos. Nela, fica também evidenciada outra crítica pronunciada por Jacques Tati: a da nova sociedade industrial. O trabalho maçante e repetitivo dos funcionários, que dão ênfase às atividades sob os olhos do patrão.
Com a modernidade sob questionamento e figuras estereotipadas, como o sr. Hulot, vigentes até hoje, Meu Tio é um dos poucos filmes que conseguem se manter atuais mesmo ao completar 45 anos. E assim continuará por muito tempo.
Um comentário:
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